domingo, 9 de fevereiro de 2014

Hazy Hamlet


Quando se fala em Underground, logo nos vem a cabeça bandas de metal extremo. Mas o que temos aqui? Uma banda de Heavy Metal, sim! Puro Heavy Metal, de dar inveja as bandas da NWOBHM.
Estamos falando da Hazy Hamlet banda paranaense formada em 1999.
Em 2001 lançaram uma demo, ”Hazy Tales”, o primeiro passo estava dado, em 2003 sai um EP ”Revelation”, os caras não dão descanso e em 2005 um single, ”Chrome Heart” é lançado, esses trabalhos serviram para pavimentar a estrada da Hazy Hamlet, que em 2009 lança seu primeiro full-leght, “Forging Metal”, este repercutiu positivamente e a banda foi convidada pelo renomado produtor/editor Bart Gabriel para ter uma musica incluída em uma coletânea “Moment Of Steel” de 2010, no mesmo ano, pelo selo alemão Remedy Records são convidados a gravar uma faixa para um tributo ao W.A.S.P.
Em 2013, após um hiato de 2 anos, a Hazy Hamlet traz a tona sua obra prima, forjada pelos anões em Nidavellir(um dos 9 mundos da Mitologia Nórdica) , sobrevivendo ao Ragnarok. Quatro bravos guerreiros, Arthur Migotto (vocal), Julio Bertin(guitarra), Fabio Nakahara(baixo), Cadu Madera(Bateria), resgataram e lapidaram em 8 faixas “Full Throttle”.



Hazy Hamlet nos brinda com uma aula de Heavy Metal tradicional, “Full Throttle” traz o que há de mais inspirador em riffs cadenciados e melódicos, sem deixar pra traz a velocidade, play excelente para um headbanging, baixo cavalgado de dar inveja a Steve Harris, vocal rasgado, bateria impecável.
O álbum já chama atenção pela ótima capa, que traz Odin sentado em seu tradicional cavalo, eu disse tradicional! Não aqui, Sleipnir se tornara uma motocicleta, que o Deus Nórdico guia sobre a estrada de crânios.
O álbum já abre com um petardo, a faixa titulo “Full Throttle” que também da nome ao play, nos remete ao inicio dos anos oitenta, tamanha influencia que a banda carrega de bandas como Iron Maiden, Judas Priest, Manowar, Accept, DIO entre outras. O disco segue sem perder o pique, “Symphony of Stell” traz um lado mais cadenciado, e uma rifferama, de dar inveja ao trio de guitarras do Iron Maiden, fora o baixo, uma verdadeira sinfonia. “A Havoc Quest” rápida, melódica, instrumental... sem palavras, se meus ouvidos pudessem falar eles chorariam, tamanha beleza auditiva produzida em quase 3 minutos. “Vendetta” mostra que os caras não estão para brincadeira, não deixando cair a qualidade do play, nos mostrando coros, e um solo de arrepiar. “Jaws of Fenris” aqui o lado rápido da as caras de novo, souberam mais do que usar, mas dosar as influencias, uma aula de Metal Tradicional regado a NWOBHM, nada aqui soa piegas, nem mais do mesmo, é Heavy Metal de muita qualidade. O Play ainda conta com mais três petardos “Odin’s Ride”, “Thorium” e “Red Baron”.
 Ressalto o trabalho de guitarras e a excelente produção do material, que deixou tudo no lugar, sem excessos. O álbum foi lançado de forma independente pelo selo Arthorium Records do vocalista Arthur Migotto, gravado e mixado no estúdio Bigorna, da própria banda. 


Depois dessa breve resenha, ainda conversamos com Arthur Migotto, sobre a Hazy Hamlet e o Play recém saído do forno! Confiram o resultado!


Pra começar, nos fale um pouco de como surgiu a Hazy Hamlet, e a ideia de se fazer Heavy Metal em um país onde esse estilo é tão subestimado?

Olá, Artur! O Hazy Hamlet foi concebido pelo baixista Fabio Nakahara, e fundado em conjunto com o guitarrista Julio Bertin, lá nos idos de 1999. O grupo então chamava-se Phantom – fruto da paixão pelo Maiden 80 -  mas foi logo rebatizado de Hazy Hamlet pelo próprio Fabio, para evitar homônimos. Como qualquer banda de adolescentes, surgiu tocando covers das grandes referências, mas junto às primeiras alterações de formação veio logo a iniciativa de composições próprias. À época, as músicas do Hazy Hamlet não tinham um estilo muito bem definido. As influências eram muitas, mas predominavam o power metal europeu e o heavy tradicional. Tocar Heavy Metal em um país como o Brasil ou qualquer país sul-americano é um desafio por si só, pois há pouco ou nenhum apoio governamental, e pouquíssimo apoio da grande mídia. Este, quando existe, acaba prestando o desserviço de banalização, seja pela ironia ou despreparo dos jornalistas, seja pela falta de compreensão da massa, resultado da sujeição aos produtos de contracultura providos pela indústria. No Brasil, só duas razões explicam o fato de alguém querer seguir uma carreira tocando nosso estilo: uma ambição cega e/ou ingênua em querer ser “rockstar” - fazendo fama, grana e sexo com em uma concepção quase hollywoodiana – ou a paixão incondicional por uma música honesta e que pode dizer muito, ainda que marginal e pré-conceituada. É nesta última que se encontra o Hazy Hamlet.

Nesses anos no underground, quais as maiores dificuldades enfrentadas pela Hazy Hamlet, e o que os motivou a seguir em frente?

São 14 anos de banda. Foram tantas as dificuldades estruturais, ocasionais ou financeiras, que é difícil nomear as maiores que enfrentamos. Eu, pessoalmente, citaria duas: primeiramente o calote pós-show (em 2004 ou 2005), que nos deixou sem dinheiro, sem hospedagem, sem alimentação e exaustos a 700km de casa. Ficamos um mês sem nos falarmos, e neste tempo deliberamos se devíamos continuar ou não. Em segundo, os inúmeros problemas de saúde dos integrantes – que obviamente foram adversidades, mas nos fizeram parar as atividades ou trocar a formação várias vezes. Acho que nada racional explica o fato de termos seguido em frente, senão a paixão pelo som e a vontade de nos expressarmos.

O que motivou a parada da banda, ficando 2 anos inativos, e retornando em 2013?

Na virada de 2010 para 2011 eu me mudei para Curitiba, e logo em seguida fui acometido por uma séria disfonia que me impossibilitava de cantar. Pedi uma pausa para a banda para procurar tratamento. Tratei refluxo laringofaríngeo durante meses, com dois médicos diferentes. Foi um terceiro médico que descobriu que eu havia desenvolvido fortes alergias com a abrupta mudança de ambiente (urbano e de trabalho), que me causavam faringite e cordite constantes. Iniciei um tratamento imunológico de 3 anos de duração, mas na metade do tratamento meu médico veio a falecer. A esta altura – meados de 2012 – a banda já estava muito dispersa, e compor e gravar um novo disco foi a melhor (ou única) maneira que encontrei de reunir o grupo. Gravamos em dois períodos de dez dias no segundo semestre, mixamos no primeiro de 2013 e só conseguimos lançá-lo em Novembro último.

A Internet tem sido uma mão na roda, tanto pra divulgação, quanto para interação com o público, ou comunicação entre bandas, selos, distros, produtoras. Como vocês veem o papel da Internet na cena underground hoje?

Hoje, 2014, não existe underground sem Internet. O underground sempre foi movido pela mídia alternativa, troca de correspondência, troca de materiais entre os ouvintes e entre os selos independentes. Tudo isso sempre existiu, na forma de cartas, paperzines, encontros diante de lojas e eventos.  A Internet, com toda sua agilidade de informação, de certa forma reinventou o underground, migrando estes meios e movimentos para o virtual. Entraram os webzines, e-mails, bate-papos, blogs de download, grupos do facebook... Até a forma de se marcar os eventos mudou. Houve ganho de velocidade na comunicação e no acesso aos materiais. Mas tudo tem um preço. Neste caso, em minha visão, são a impessoalidade e o descompromisso nos tratamentos, e o distanciamento do público dos eventos com bandas locais.

E quanto a concepção de “Full Throttle”? Como aconteceu todo o trabalho de composição das faixas, produção, até chegarem no resultado final?

“Full Throttle” é um disco à parte, cuja história difere um pouco dos outros itens da discografia da banda, que têm participação de todo o grupo. Eu sempre curti muito compor, incluindo riffs e o instrumental. Quando em 2012 me deparei com a situação da minha doença, os membros dispersos, a banda com atividades paralisadas, percebi que algo deveria ser feito rapidamente ou o grupo poderia chegar ao fim. Juntei umas ideias minhas antigas – algumas de antes de minha entrada na banda – e outras novas, encomendamos uma capa, e em um mês compus o esqueleto do que viria a ser “Full Throttle”. Enviei para os integrantes ouvirem, e no mês seguinte tirei férias para gravar com eles. Não houve ensaios prévios, e eles não haviam tirado tudo ainda, composto seus arranjos, solos, etc. Foi de certa forma assustador, mas o susto resultou em excelentes improvisos. Gravamos em dois períodos de dez dias, mixei no início de 2013, e logo estávamos procurando um selo para lançá-lo.

Como tem sido o retorno do público, a aceitação do novo álbum? Pode sair uma prensagem em vinil?

Como lançamos no fim do ano e há um atraso até a chegada do material aos veículos de imprensa, ficamos um pouco fora de foco na mídia, mas a resposta do público tem sido espetacular desde o início, e muito além do que poderíamos esperar para um disco lançado desta maneira. O álbum é um pouco mais tradicional que o anterior, “Forging Metal”, e isso nos causou um certo receio quanto à aceitação, mas logo fomos tranquilizados pela excelente resposta dos headbangers. Agora começaram a sair as resenhas, e temos sido surpreendidos com muitos elogios! Quanto ao vinil, esta sempre foi nossa vontade, e o projeto todo do disco foi voltado para um LP com capa dupla (gatefold). Infelizmente o custo da produção do vinil no Brasil ainda é proibitivo, e estamos aguardando um pouco para saber se este lançamento será viável. Não vamos desistir da ideia.

Nos explique um pouco da concepção da arte da capa de “Full Throttle”. Quem é o artista por trás da obra?

“Full Throttle” é de certa forma uma obra de redenção, retomada, e a capa traz um pouco da reflexão que tivemos durante o período inativos. Queríamos algo que transmitisse uma forte mensagem de “carpe diem”, da importância de se aproveitar ao máximo cada momento. A metáfora de Odin transformar seu cavalo Sleipnir em uma motocicleta, ainda que simples e de certo modo cômica, remete exatamente à sugestão da necessidade de deixarmos para trás algumas amarras, como dogmas religiosos, consumo desenfreado, entretenimento fútil, para vivermos de modo mais objetivo, passional, pessoal, uma vida que é única do ponto de vista provável. O cenário pós-apocalíptico e a estrada de crânios remetem à morte e à degradação enquanto seguimos o caminho conservador e anti-humanista. A bigorna lembra o trabalho do Hazy Hamlet, com sua força e persistência para seguir adiante. A arte de capa ficou novamente a cabo do ilustrador carioca Celso Mathias, que descobri na Internet em 2007 e a quem já consideramos um grande amigo. Ele foi o responsável pela arte do nosso álbum “Forging Metal”, lançado em 2009, e após isso já realizou trabalhos para Chrys de Lyra, Fire Strike e os veteranos do Azul Limão.

Quais os planos da Hazy Hamlet para o futuro? O quem vem por ai?

Queremos concluir a divulgação do disco junto à imprensa, e então iniciar uma longa fase de apresentações, tentando recuperar todo o tempo perdido durante nossa pausa. A intenção é usarmos 2014 e parte de 2015 para tocar em lugares onde nunca estivemos – e são muitos, de norte a sul do país. Teremos a alegria de começar pela cidade onde moro, Curitiba, na abertura para o Raven, dia 21 de Março.

Deixo aqui um espaço para as considerações finais da banda!

Gostaríamos de agradecer a todos os fãs de heavy metal tradicional, principalmente aqueles que nos empurraram e nos motivaram durante os dias de trevas. Queremos recompensá-los de alguma maneira, e não há forma melhor do que um grande show. Preparem-se, pois o Hazy Hamlet está retornando à estrada – e agora com gás total!



Agradeço a disponibilidade e atenção do Athur Migotto e a Hazy Hamlet por fazer esse excelente trabalho!
Longa Vida a Hazy Hamlet!

Links da Banda




Stay Heavy!


por Artur de Azeredo