quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Brutal Morticínio o lado sangrento da América Latina

Oriunda das frias terras do sul do Brasil, a horda teve seu inicio no ano de 2006 formada por Tormento e Mielikki com o intuito de tratar a respeito de temas voltados ao anti cristianismo, a história da América Latina, guerras e outros. Em 2008 Mephistopheles entra na bateria e completa a formação, que a essa altura já possuía as músicas prontas. Em 2008 lançaram o seu primeiro full-lenght, o “Despertar dos Chacais... O Outono dos Povos”, e após algumas conturbações na formação a banda veio a lançar o “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais”. A banda segue na ativa em busca de reascender o orgulho latino americano em suas letras, celebrando antigos sistemas e ritos tribais.

HMAN: Obscuras Saudações! Conte um pouco de como surgiu à ideia de iniciar a banda e como tem sido a caminhada até hoje?
Matheus Rodrigues: Saudações Bryan e Heavy metal all Night, é um grande prazer poder participar destas páginas! Desde já agradecemos pelo espaço concedido ao Brutal Morticínio! A horda foi formada em Novo Hamburgo RS em 2006. Basicamente a idéia original era versar sobre anti cristianismo sob o ponto de vista daqueles que foram as suas vitimas históricas. O Brutal Morticínio surge para ser o porta voz daqueles que perderam as primeiras batalhas contra o cristianismo, mas que não se entregam!
Do ponto de vista sonoro, a idéia original era fazer um som voltado ao Black Metal old school. Um estilo de metal negro, na linha do Sarcófago, Hellhammer e Darkthrone, ou seja, buscando uma sonoridade ríspida, direta e sem frescuras. Claro que com o passar dos anos você acaba ouvindo também outros sons e essa influência torna-se cada vez mais nítida. Particularmente tenho ouvido cada vez mais DSBM, pois acho que há muita rispidez e me parece que é um dos subgêneros dentro do Black Metal que ainda está muito ligado aos primórdios do Black Metal, com muita crueza tanto do ponta de vista das melodias, quanto do ponto de vista das captações. 
Nesses quase dez anos a banda passou por diversas formações, lançamos dois full álbuns (despertar dos chacais... O Outono dos povos e Obsessores espíritos das florestas austrais), além disso, participamos de inúmeras coletâneas. 
Com todos os limites impostos pelo underground, acredito que o Brutal Morticínio tem se saído relativamente bem. Conseguimos ter uma abertura interessante entre o público nacional, uma vez que direcionamos, sobretudo para esse público, pelos temas que tratamos e também pelo idioma em que elaboramos os sons. A resposta tem sido interessante pelas redes sociais e pelo apoio que recebemos nos shows. 

HMAN: “Despertar dos Chacais... O Outono dos Povos” foi o primeiro álbum da banda e eu gostaria que você comentasse um pouco sobre a importância dele para a banda e como foi à repercussão dele no cenário nacional?
Matheus: O álbum foi lançado originalmente em 2008. Considero-o como um sucesso uma vez que ele foi lançado no formato digipack em 800 cópias e após isso, foi relançado com mais 500 cópias. Houve ainda a necessidade de fazermos no formato prensado três anos depois com o apoio de várias distros, por isso o considero um sucesso. O álbum de estréia traz entre outros sons “Estúpido e Podre Homem Branco Cristão” que causou uma certa polêmica. Conseguimos a partir desse som, em parte, imprimir a nossa marca, ou seja, um metal negro, que não é ligado ao conservadorismo, ao contrário, algo que pode ser enquadrado como progressista, que questiona de maneira radical os dogmas impostos pela sociedade cristã ocidental. 

HMAN: A arte da capa do “Despertar dos Chacais... O Outono dos Povos” é algo bem rústico, quem foi o responsável? E o que ela representa?
Matheus: A capa foi elaborada por um amigo, o artista plástico Bissigo Rico. A capa representa num primeiro plano uma floresta sombria, entretanto se você olhar com um pouco mais de atenção vai perceber que a floresta é formada por figuras humanas em estado de sofrimento. A obra representa exatamente o outono dos povos, ou seja, a sua desumanização, a perda de direitos e o avanço dos interesses econômicos sobre os interesses da sociedade e do meio ambiente. Ela é complementada pela obra, também de autoria de Bissigo, que há em seu interior, no encarte do lançamento original, que retrata a chegada dos europeus na América. Feita em forma de uma releitura, mostra o desembarque dos europeus como a chegada da morte ao continente, ou seja, a sua morte cultural e o início do atrelamento ao modo de vida ocidental. 
Temos que ressaltar e lamentar que a arte da capa teve o seu recurso visual prejudicada, uma vez que foi produzido em formato de tela. Essa pintura a óleo no momento em que foi colocado na arte digital perdeu em muito os seus detalhes.

HMAN: “Obsessores Espíritos Das Florestas Austrais” saiu no ano passado e a parte da banda já se esgotou, restando poucas cópias espalhadas por distros. Como a banda vê isso e qual foi o principal fator para o “sucesso” do álbum?
Matheus: É quase inacreditável para nós esse sucesso que o álbum fez. Vemos isso com muita satisfação e nos sentimos orgulhosos pelo trabalho divulgado e pela aceitação do público. Temos que ressaltar que o público do metal extremo é sempre muito criterioso e isso nos da ainda um pouco mais de orgulho. Sabemos que há muito ainda pra ser feito e, sobretudo sabemos de todas as dificuldades em que o underground está sujeito e de toda a luta que é para o lançamento e a divulgação de um full lenght, por isso valorizamos tanto essa marca, isto é, em relativamente pouco tempo a banda já distribuiu todo o material. Sabemos de nossos limites e que o nosso reconhecimento na mídia de metal extremo nacional não é muito elevada e sinceramente não é o que o Brutal Morticínio busca. Queremos cada vez mais fazer um trabalho de qualidade, tanto na parte lírica quanto instrumental e divulgar entre os verdadeiros guerreiros e entre aqueles que compreendem a nossa luta. O Brutal Morticínio não procura fãs, procuramos aliados em nossa luta contra o cristianismo e o modo de vida ocidental, ditado pelo “Deus mercado”. Apenas usamos a nossa música e arte como recurso de divulgação destes ideais.

HMAN: O fato de cantar em português me agrada muito, tendo em vista que é difícil conciliar a nossa língua com o Metal, mas vocês executam isso de forma impecável! Porque vocês decidiram manter essa linha e o que isso influencia no processo de criação?
Matheus: O idioma português em nossas musicas não foi algo pensado ou proposital ele apenas foi surgindo naturalmente uma vez que falamos de nossos ritos, nossa história, nossas mazelas e sofrimentos. Soaria falso, no meu ponto de vista, se entoássemos os sons em outro idioma. Apesar de o português ser o idioma do conquistador, ele se fez como algo comum a todos nós. É a maneira como nos comunicamos por aqui e no meu ponto de vista, qualquer coisa que não fosse em português soaria com um certo ar de falsidade. Não descarto que em algum momento possamos fazer algum som em inglês, espanhol, ou qualquer outro idioma, entretanto o Brutal Morticínio, sempre será preponderantemente cantado em português.

HMAN: Em suas letras vocês abordam diversos temas, desde o anti cristianismo até a história dos nativos. Conte um pouco sobre o que inspira a banda na hora de compor. 
Matheus: A inspiração da parte da temática lírica surge a partir da grande admiração que sentimos pelo trabalho de alguns autores como o Uruguaio Eduardo Galeano e sua interpretação da história da América latina. Também as obras de Eric Hobsbawm, José Carlos Mariátegui, Augusto dos Anjos e Alan Poe. Como ponto de partida achamos muito importante o discurso do cacique Guaicicuro Cuautemóc.
A música e a mensagem da horda são endereçados para as populações latino- americanas e principalmente para os reais guerreiros do Brasil, por isso escolhemos de maneira quase automática que os sons fossem escritos em português, porque soaria falso -como havia comentado- se as nossas músicas fossem simplesmente transplantadas para outro idioma, Falamos de nossos problemas, de nossas angústias que são universais, mas que em nossa América latina, tem cores e contornos diferenciados e muito mais agudos.
Em nossas letras basicamente buscamos divulgar o outro lado da história da América latina, nossa América. Uma história de luta, rebeliões, guerras. Buscamos reascender este passado sangrento e sua importância, contrastando com o que o senso comum acha de nosso povo, que somos dóceis e que nos deixamos facilmente dominar pelos brancos cristãos. Acho que é importante que todos nós do underground tenhamos uma mínima noção disso e que a coisa não se perca simplesmente no visual. Uma contra cultura de fato se constrói também com conhecimento e com um mínimo de erudição, para que com mais clareza possamos construir este front de defesa contra o capitalismo/cristianismo e não acabarmos por simplesmente reproduzir todo o comportamento que a sociedade cristã- neoliberal pretende para nós. Isto é, construir uma atitude realmente combativa e uma alternativa real a sociedade que nos foi imposta. Temos que ter a clareza de perceber que esta é apenas uma realidade possível e cabe a nós apontarmos outros caminhos, principalmente questionando e desconstruindo as “verdades” do cristianismo, que servem de amálgama para uma sociedade podre, que não se sustenta nem ambientalmente, nem socialmente.


HMAN: Como vocês veem o cenário da região Sul atualmente? Vocês costumam frequentar eventos locais?
Matheus: A cena da nossa região do RS, a região do vale dos Sinos, infelizmente é bem pequena, mas conta com grandes bandas e com guerreiros reais e comprometidos com o underground. Sempre que possível vamos a shows, e acredito que as críticas que fazemos a cena daqui se repete pelo país e não é segredo para ninguém a postura mercenária de certos tipos que se infiltram no underground.
Existe, infelizmente, uma “panela” aqui no RS que se concentra na capital. A cena de Porto Alegre infelizmente é fechada para as hordas do interior. Entenda, moramos numa cidade que está a 40 minutos da capital e nossa aceitação e divulgação é muito maior nos Estados do sudeste e Nordeste. Tocamos apenas 3 vezes nesta cidade e jamais fomos procurados por zines da capital. Este tipo de panela, sem dúvida, atrapalha em muito a divulgação. 
Em termos da cena nacional, ela é também bastante crítica, pois existe o fechamento para as hordas que não são do circle do dinheiro ou de certas produtoras. Enviamos muitos materiais de divulgação a muitos veículos e não foi publicada nem sequer uma nota. Entretanto o real underground que não faz as coisas por dinheiro tem demonstrado ser muito bom e muito íntegro, nestes anos em que a banda passou a interagir de forma mais coesa.
Acho que no geral o underground está bastante complexo. Existe de tudo na cena desde reais guerreiros que realmente lutam pelo metal e o fazem com muito respeito e qualidade. Agora também existem os aproveitares, que querem tirar grana das bandas e das distros, pessoas "inseridas" que não fazem a mínima noção do que fazem lá e infelizmente o que tem se tornado comum no meio – bandas comerciais – Bandas que estão travestidas de metal extremo e que na verdade usam o underground como um mini "mainstream", tendo as mesmas atitudes e posicionamentos que as demais parcelas da sociedade. O underground do RS é bem parecido com o underground que tenho visto pelo Brasil, existem muitas bandas realmente muito boas, que fazem um som extremo com muita qualidade, uma vez que os estúdios especializados também cresceram e também ficaram mais acessíveis, e a facilidade de comunicações que faz com que você tenha um contato legal com pessoal realmente comprometido com o metal extremo, mesmo em longas distancias. O mesmo podemos falar de zines e distros extremas. Também há os grandes problemas das panelas que não são ideológicas, de bandas que reproduzem o comportamento do mainstream (ou uma espécie de mini mainstream, com a sua reprodução de valores e atitudes, se comportando muito pouco como membros de uma cultura de resistência) e um sem número de aproveitadores que tentam ao máximo arrancar grana das bandas do underground.

HMAN: Quais são os planos da banda para 2016?
Matheus: Estamos preparando alguns sons novos, para um próximo lançamento, ainda não está totalmente decido como será esse formato, se será um full, um EP, etc. Temos pensado em alguns sons novos, mas estes ainda são bem embrionários, embora tenhamos trabalhado neles bastante. Além disso, estamos ensaiando para algumas possíveis apresentações. O que posso adiantar é que haverá algumas mudanças na formação da banda.

HMAN: Agradeço as palavras e a disposição em responder essa entrevista. Deixo aqui o espaço para as suas considerações finais.
Matheus: Eu agradeço ao Bryan e ao Heavy metal all night pelo espaço a que nos foi concedido e a todo o apoio que vem dando a horda. Sempre e muito prazeroso e gratificante responder as entrevistas daqueles que realmente compreendem o metal e o underground, e também de pessoas que acompanham o trabalho da banda. Agradecemos também a todos os leitores do espaço e a todos aqueles que acompanham o trabalho do Brutal Morticínio. Valeu!!!



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Por Bryan Batista

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